ESCRITOS DE LARA LUNNA




 O CASO DA GUERRA DA NAVALHA CONTRA O FACÃO

Parte 1

Victória sabia que a Delegada chefe do setor de Homicídios, Giuliana Toledo não gostava de telefones celulares ou qualquer outra tecnologia moderna. 

Só que, desde que, por uma verba misteriosa que veio cair nos cofres da Municipalidade para incrementar o combate ao crime, todos os policiais civis da Seccional que faziam serviço de rua receberam um telefone celular corporativo que tinha canal de rádio.

E foi neste ponto que Giuliana passou a apreciar aquele sistema. Podia fazer contato com Victória ou qualquer outro policial, apertando duas teclas do seu aparelho.

Vick estava de folga e patinava no Parque do Bambuaçu naquela manhã doce de primavera. Sol brando na pele, já bem cedinho ela teve o pressentimento de que aquele ia ser um dia magnífico.

Mas estas certezas não ocorriam vez ou outra na cabeça daquela policial que se botava contente e otimista em toda manhã bonita, principalmente daquela estação.
Claro que havia algo mais. A cereja que faltava para dar o toque perfeito de um sorvete "Sundae", além da cobertura de chantili, nozes e marshmellow.

O dia "nasceu feliz" especialmente pelos motivos que o Cazuza cantou na música. Ela despertou com a sua querida Adriana nos braços. Apesar da cama grande, a psicóloga se enrolara em Victória como um gatinho macio, as pernas e braços trançados nos seus.

A policial chacoalhou a cabeça e a cabeleira densa para pegar alguma concentração   e atendeu o aparelho que trazia afivelado discretamente na cintura. 
Gostava de tê-lo por lá, mesmo em dias de folga. De alguma forma ficava a par do que acontecia na Cidade e mantinha a distante e arisca Giuliana por perto. 
E Vick amava Giuliana Toledo. Não como uma mulher que se deseja para amante. Amava Giuliana como alguém do seu sangue, pela afinidade e por poder confiar nela. Uma professora, amiga e confidente. Mesmo que Giuliana, na maioria das vezes, a mantivesse distanciada, vezes fria, sempre sutilmente rude  quando se encontravam no trabalho ou perto de outras pessoas.

Mas havia os momentos de exceção, só delas, de amizade e quase carinho. E Di Angelis sabia que Giuliana também a considerava muito. Via derramar nos olhos dela. Mesmo debaixo de toda sua máscara e armadura de proteção. E a principal proteção não era para ela e sim para Victória.

_Há notícia de um tumulto, quase em 01.129 (código policial para  lesão corporal) com possibilidade para se tornar 01.121T ( tentativa de homicídio) em andamento. Pelo que consta, você está bem perto do local. ['E como é que ela sabia? Ah, o GPS do meu celular'] A viatura da Polícia Militar mais próxima foi alertada. Você está de folga. Não é obrigada a atender a ocorrência, câmbio!

Vick Di Angelis sabia que, com todo reforço alertado, pra Giuliana chamá-la, havia algum detalhe crítico na situação

_Copiando.  Passe as coordenadas e vou direto para lá, sem problemas. Quando pensa que o reforço vai chegar? Cinco, dez minutos?

Ambas também sabiam que em uma situação de tentativa de homicídio, o risco de lesão grave ou de o homicídio se consumar (01.121) crescia a cada minuto.

_A situação é que, dois travestis estão tentando se matar por conta de território na praça Vila Dourada, duas quadras daí.

'Sim, briga de travestis'. O que Giuliana não precisava mencionar era que as outras forças policiais alertadas, poderiam fazer "corpo mole" ou qualquer outra coisa a ponto de chegarem no local somente para "o desfecho" que na quase totalidade dos casos semelhantes, seria afastar populares do corpo no chão até a chegada dos peritosas e prenderem o assassino, provavelmente muito ferido para oferecer qualquer resistência.

A maioria da sociedade não se importava com a sorte de travestis, prostitutas e outros marginalizados das ruas. O pior que acontecesse era obra do Destino, culpa somente dos envolvidos e de mais ninguém.  Quem ia se importar por mais um Travesti morto em uma praça mau frequentada?

Giuliana Toledo e Victória se importavam.
_Estou a caminho.
_Tome cuidado. Quero que chegue no local e me passe a situação. Será os meus olhos. Não tome nenhuma atitude sem eu mandar, câmbio!


SOLANGE DA "SOLÍNGEA e ESTEFÂNIA DO "PODÃO"

Briga de travesti por vezes é bestial. Principalmente tratando-se de uma disputa de território entre Solange da Solíngea e Estefânia do “Podão”.

Para dar ideia do cenário e da batalha, a Solange, nascida Arnaldo de Freitas, lançava a “solíngen”, uma navalha antiga de origem alemã, a metros de distância quando atacava. Conseguia isso com a ajuda de uma fita elástica presa no objeto e no seu punho. Do jeito que ia, a navalha voltava, mas a Solange tinha a habilidade de a aparar pela parte revestida.

Como se não bastasse o “inferno” e estrago que uma navalha voadora pudesse fazer,  Estefânia, antes, Esteves Santos e trabalhador rural nos canaviais, trouxe consigo o “Podão”, facão sem ponta de lâmina larga e curta que podia “podar” uma braçada de cana de um só golpe ou mesmo o braço ou a perna de alguém. O que diria do pescoço?

Chegando no local, Vick viu uma viatura de Guardas Municipais estacionadas na esquina da praça com os dois GMs sentados no carro, portas abertas, tomando coca-cola com hambúrguer e fritas. 

Eles a olharam e deram de ombros, sem preocupação. Conheciam Victória. Quem é que naquela cidade, depois da publicidade em massa feita por uma conhecida rede de Jornal não reconheceria a "Victória Alada"?

Grunhiram uma desculpa ou duas para a jovem para no fim deixarem claro que era melhor deixar os “sujeitos” resolverem suas pendências pelo rumo que desse “a natureza”. Em outras palavras, que se matassem porque nenhum policial pai de família ganhava o suficiente  para entrar naquele risco.


"Lambada de Navalha"

Victória Di Angelis sentiu medo. Mas isso não mudava muito as coisas. 
Pesando "ação e consequência" na cabeça, logo o resultado era claro...e nada bom. Ela conhecia o suficiente da "fauna desgarrada" da Princesa, principalmente "aquelas duas". Não precisou pensar muito para descobrir a principal causa da guerra: Estefânia tentava invadir o território de Solange que parecia disposta a não ceder um metro de "esquina" sem antes dar muita navalhada.

Vick descreveu a "situação" para a Delegada Giuliana.
_Tente conversar, ganhar tempo que a situação é bem grave. Estou indo aí. Consiga alguns minutos.

No meio daquela calçada, as travestis rodeavam como dois galos de briga tentando encontrar a melhor chance para o ataque.

_Um minuto por favor! - pediu a policial mostrando seu emblema que tirou da sua mochila "super-power-panda"._Vamos conversar.

Solange, quando viu Victória, botou as mãos na cintura e gargalhou.

_Olha só quem está aí. A maluca que salta de prédio para aparar criancinhas inocentes. Dá o fora, Mona, que neste terreiro não tem brecha pra galinha garnisé ciscar!

"Stefânia do Podão", desta vez concordou com a inimiga:

_É isso mesmo! Em briga de Pitbull, Chiuaua não mete o focinho!

'Isso não vai prestar', raciocinou a policial, principalmente quando sentiu os bafos azedos de cachaça vindo dos dois lados.

Ela aprendeu que, tentar negociar com gente com a cabeça cheia de álcool e/ou outras coisinhas mais, dava o mesmo resultado que latir e correr atrás das rodas dos carros que passavam pelas ruas.

E pior, os ânimos exaltados foram nas alturas no exato momento em que a policial "otimista" percebeu o perigo da sua posição. Não tinha ideia como era que metera o corpo bem no meio dos dois descontrolados, em pleno caminho da navalha e do facão.

'Santa Protetora dos Bisonhos, livrai-me da navalhada' - ainda teve tempo de conjurar na cabeça e nada mais aconteceu como se fosse real.

O tempo andou devagar, mesmo com uma navalha voando de um lado e um "facão de deitar canavial" vindo pelo outro. 

Se o tempo ia devagar, a mente acelerou de um jeito que deu até pra ler as letrinhas miúdas na lâmina da navalha: "Wald-Solingen - 3383".
(...continua) 

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